
Esta semana estou a dar aulas em Coimbra.
Assim sendo, só vou poder responder-vos quando voltar:
Segunda-feira, dia 27.
No entretanto, porque dia 23 passam trinta anos e um mês sobre a data da sua morte, este espaço fica preenchido com palavras desse mestre nas coisas do amor, que foi Pablo Neruda.
O INSECTO
Das tuas ancas aos teus pés
quero fazer uma longa viagem.
Sou mais pequeno que um insecto.
Percorro estas colinas,
são da cor da aveia,
têm trilhos estreitos
que só eu conheço,
centimetros queimados,
pálidas perspectivas.
Há aqui um monte.
Nunca dele sairei.
Oh que musgo gigante!
E uma cratera, uma rosa
de fogo humedecido!
Pelas tuas pernas desço
tecendo uma espiral
ou adormecendo na viagem
e alcanço os teus joelhos
duma dureza redonda
como os ásperos cumes
dum claro continente.
Para teus pés resvalo
para as oito aberturas
dos teus dedos agudos,
lentos, peninsulares,
e deles para o vazio
do lençol branco
caio, procurando cego
e faminto teu contorno
de vaso escaldante!
Por Pablo Neruda
Um beijo imenso a quem lê a minha poesia e até dia 27...

I
Se tu és:
Um pinheiro.
Então eu sou:
O vento.
O vento que ao passar assobia entre ti.
II
Se tu és:
Um livro.
Então eu sou:
A mão.
A mão que acaricia a página que já li.
III
Se tu és:
Uma estrela.
Então eu sou:
O céu.
O céu da noite escura que por trás te faz brilhar.
IV
Se tu és:
Uma lágrima.
Então eu sou:
Eu.
Aquele que por amor te bebe ao beijar...

- «Às 4 da manhã, dizemos de tudo» - disse ela a sorrir. - «Vê se descansas para teres vontade de colorir o teu mundo...»
- «Quem ocupa os nossos pensamentos, não tem hora para os ocupar...» - retorquiu ele.
Levantou-se, e travou os ponteiros que se acamavam a preto-e-branco.

Estranho mundo, o teu, não é?
Onde os duendes do teu coração
precisam ter sede para desejar água gelada.
Onde os duendes do teu coração
precisam desejar água gelada para consentir o frio da noite.
Onde os duendes do teu coração
precisam consentir o frio da noite para celebrar o calor do dia.
Onde os duendes do teu coração
precisam celebrar o calor do dia para buscar o abrigo da sombra.
Onde no abrigo da sombra
carecem da água gelada que lhes matará a sede.
Estranho mundo, o teu. Não é?

Sou um palhaço pobre.
De alma e coração.
Salto.
Tropeço.
Arremesso.
Como à mão.
Faço mil diabruras sem ter onde cair.
E mesmo quando salto...
E mesmo se tropeço...
De que vale lamentar meu coração a partir?
Sou um palhaço pobre!
Só me importa o teu sorrir!
...
Nota: Luis Buñuel preferia Buster Keaton a Charles Chaplin porque ele nunca se deixava levar pelo sentimentalismo. Era um cómico também, mas mais preocupado com a composição estética de suas gags, unindo o mais louco humor à plástica mais apurada.

Olha-me nos olhos e diz-me o que vês.
Paixão? Amor? Solidão? Lamento?
Olha-me nos olhos!
O que tenho cá dentro?
Os olhos não mentem.
São o espelho da alma, dizem.
Denunciam a mentira.
Exibem a verdade.
São o nosso sofrimento; amor; saudade.
Olha-me nos olhos e diz-me o que vês.
Acreditas agora que estás dentro de mim?
O olhar não mente.
Os Homens, sim.

Que animal existe em ti?
Quando gritas. Quando corres. Quando saltas. Quando beijas.
Que animal existe em ti quando mordes e aleijas?
Galgo? Golfinho? Gata? Galinha?
Quando desejo que sejas minha que animal existe em ti?

Esta noite estive em ti e nem parei para pensar.
Senti tua pele.
Teu cheiro.
Tua doçura.
Moldei teu corpo ao meu como se fosse escultura.
Esta noite estive em ti e nem parei para pensar.
Bebi teu néctar.
Teu amor.
Tua vida.
Matei a tua sede de ser amada mulher esculpida.
Esta noite estive em ti e nem parei para pensar.
E quando parei
- para pensar -
dei de novo comigo em ti!
Foi então que pensei:
Para quê pensar... se te senti?

Dá-me um Beijo
Amor.
Derrama pelos meus lábios o batom que tens nos teus.
Que a tua saliva se misture na minha.
Que a minha língua se faça refém.
Prometo guardar o teu paladar
sem o dar a provar
a alguém.
Só assim
longe
ausente
distante
trancado no quarto
e em solidão
posso sentir o teu sabor.
Ao fazer Amor na palma da mão.

I
Toma.
Queres?
Podes fazer com eles o que quiseres.
Se quiseres os meus lábios, eles serão teus.
Usa-os!
Usa os meus lábios como lábios de estimação.
Nos teus lábios.
Nos teus seios.
Nas vigias do teu ventre.
Baixo.
Cima.
Trás.
Frente.
Como lábios que descobrem, num repente, o vulcão...
II
Toma.
Queres?
Podes fazer com eles o que quiseres.
Se quiseres os meus lábios, eles serão teus.
Usa-os!
Usa os meus lábios como lábios de estimação.
III
Mas - por favor - meu Amor...
Não os ensines a dizer: Não!

Não!
Os livros não se rasgam!
Mas quem ainda não foi tentado a rasgar uma ou duas páginas a um ou dois livros?
Ninguém!
Aqui - sim - poderás fazê-lo.
No entanto... não ofereças este endereço a quem amas.
Oferece-lhe uma poesia.
Uma por dia.
Ou uma de quando em quando.
Mas - por favor - meu amor...
Tem cuidado!
Nunca ofereças o poema errado!

plural do Lat. corpu
s. m.,
qualquer porção limitada de matéria;
a parte material de um ser animado;
busto;
parte do vestuário feminino que se ajusta ao tronco;
conjunto;
agremiação;
grupo;
espessura;
consistência;
colecção;
unidade de medida dos caracteres tipográficos;
a parte principal de muitas coisas...

«No princípio era o verbo» - disse Adão.
«Risos» - respondeu Eva.

Pablo Neruda dizia que toda a poesia é erótica.
Concordo com ele.
Aqui, encontrarás um poema por dia.
Ou um daqueles desabafos que nos surgem por tudo e por nada.
Ou o prazer da palavra como exaltação de tudo o que é referente ao amor físico, prazer e desejo sexual, distintos da procriação.
Ou, como se lê na definição de corpus, o uso da palavra como exaltação de tudo o que é referente a muitas coisas...
Por um VICTOR sem C de Lisboa.
No santo ano de 2003...